Em meio à inexpressividade musical tão abundante atualmente, tantos novos trabalhos totalmente insignificantes de grandes artistas, eis que surge essa coisa magrela, cabeçuda e cor-de-fogo que é o Nando Reis, e faz uma música inadjetivável como essa Pra Você Guardei o Amor, sétima faixa do novo disco Drês.

–> Ouça aqui com a letra

NandoReisHá artistas que fazem música com instrumentos, e há seres distintos como esse cara, que fazem poesia com a alma. Embora o dueto masculino-feminino lindo com Ana Cañas e o violão de Nando timbrado no ponto  ainda dêem o tom intimista perfeito, uma simples voz a capela (o que de fato acontece) bastaria para dar os mesmos arrepios.

Pra maioria de nós, que nunca faz nada de bom com sua dor e desilusão fica aí um exemplo invejável do como um ser humano pode fazer de seu amor e sua dor uma expressão divinamente bela do que é não ser divino e sofrer.

Um artista que faz uma música como essa não precisa fazer mais nada até o fim da vida, que já terá feito muito.

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Como criança que era, tudo que eu queria naquele dia era ganhar um brinquedo. Esperei o dia todo, ansiando a chegada deles, não pensando em outra coisa, sonhando com aquele momento. Coisa de criança inocente, sonhadora, de poucas companhias, enfiada em seu mundinho próprio tentando torná-lo grande o bastante para lhe acolher confortavelmente. Ao final do dia, voltaram trazendo o objeto que outrora, por desconhecido e representante que era de toda uma imaginação movida a puro desejo e sonho, causara tanta inquietude: um disco de vinil.

Meu Deus, que decepção! Lembro-me como se fosse hoje. Continua gravado aqui nesse consciente, tão tangente a ponto de quase me causar lágrimas ainda agora.

Um LP de capa azul – em primeiro plano um robozinho de mão de pinça, luzes grandes coloridas resplandecentes, cabeça de lata abobadada, braços de mangueira de aspirador de pó, lembrava àquele do Perdidos no Espaço. (Vim a conhecer o seriado somente anos depois, mas me vem essa comparação à cabeça hoje.) Era um daqueles discos da Som Livre, comuns na época, com temática infantil: musiquinhas dançantes, cantantes e divertidas para crianças.

Não pra mim. Eu queria um brinquedo, droga! Uma jogo novo de massinhas de modelar da Estrela, um Comandos em Ação, um Lego, um Batman de brinquedo, um Superman, Aquaman, Homem-Aranha, qualquer um!

Chorei feito criança, tal que eu realmente era. Olhava aquele quadrado azul-colorido e tinha vontade de sumir. Temia ter que ouvi-lo por obrigação, para não mostrar a rejeição ao agrado dos pais. Pensava em tudo que aquele objeto devia ser e não era, e chorava novamente – se é que já havia parado.

Um tempo depois eu pedi de presente aos mesmos que me deram o disco azul maldito, vejam só, um disco! Que dessa vez fora escolhido e adquirido pelas minhas próprias mãos, embora não com meu dinheiro. Entrei na loja já sabendo o que queria e disse: “Quero aquele pendurado ali em cima”. Nem precisei procurar muito, escolher; era produto do momento. (Hoje não entendo muito bem o porquê, mas naquela época os discos ficavam às vezes pendurados nas lojas, como roupas no varal.)

A capa mostrava uma mulher em pose de dança, meio retorcida, atrás um fundo amarelado e tiras de todas as cores circundando-a, com os nomes das músicas seguindo esse mesmo sentido das faixas. Era o Disco 95, uma coletânea das músicas dance/disco que mais fizeram ou faziam sucesso no ano – uma espécie de Top Hits. Mais um da Som Livre, que naquela época ainda tinha vários lançamentos nesses moldes, mas dessa vez nada de música pra criança. Era música para jovem – para mim, menino petulante, presunçoso, que queria ouvir música de gente grande.

Escutei aquele disco por bastante tempo. Foi, das poucas experiências que tive com o vinil, a mais duradoura.

Logo veio o CD, e aqueles discos grandes e pretos se foram. Mal sabia eu o que estava por vir -  tanto em minha vida, quanto no mundo.

Descobri o mundo mágico dos discos, que então já eram menores, compactos, compact discs, e estes viraram meus objetos de desejo. Continuei ainda parcialmente decepcionado por não poder tê-los como queria. E não podendo comprar um CD, naquela época, você ficava sem música – não havia MP3 e internet para tornar tudo mais fácil.

Mesmo assim, os seis meses de espera entre um disquinho novo e outro eram recompensados por horas e horas de audição interminável, e devoração dos encartes.
Por vários anos em que esses eram meus objetos de desejo maior, tive poucos, mas que foram saboreados prolongadamente e em sua completude, cada um.

O tempo passou mais ainda, nem tanto assim, mas o suficiente para acabar também com esses disquinhos menores, e hoje eu sinto falta deles. Falta de desejá-los, de esperá-los, de não tê-los, e de quando tê-los, colocar neles toda a felicidade que um instante de vida pode proporcionar. Falta de não ter outra forma de saciar minha sede de música senão com eles.

Eu ainda, caso pudesse mudar os eventos do início de meus dias, escolheria ter ganhado um brinquedo, ao invés de um disco, naquele dia triste que não se apaga de minha memória. Mas ainda assim, gostaria de ter ganhado muitos mais discos como aqueles, em dias mais felizes do que aquele e do que estes de agora.

Talvez a dificuldade em escrever deva-se à ausência de vida, ou ao excesso desta. Quem é que sabe dizer quando acontece um ou outro? Quem aqui seria irresponsável o bastante para dizer que tem o controle da situação? A situação de ser(-)humano; ser que é verbo e substantivo entrelaçados e inseparáveis; ser que é jogado de lá pra cá pela maré de possibilidades e incertezas que é a vida, escravo de si e do que está ao seu redor.

O texto se liquefaz no cérebro daquele que tenta apanhá-lo, intangível, fujão, sempre um passo à frente, como um borrão na penumbra. Quanto tocado se desfaz como bolha de sabão. Fica aquela sensação do choro que não sai, da lágrima aprisionada, o nó na garganta que não vira pranto.

As palavras não vêm, assim como a vida também não vem em doses exatas, regulares e com hora marcada. A vida vem em avalanches e conta-gotas, e não raro as gotas inundam e as avalanches deixam tudo no lugar.

Feliz é aquele que aprendeu a domar seu espírito, adestra sua natureza e arranca o que quer dela, na hora em que quer. A maioria de nós vive refém de si mesmo, não há porque negar – a negação já é em si uma afirmação de muitas outras coisas.

Se nada disso parece fazer sentido é porque o sentido também é moço frágil, que tomba diante de qualquer argumento, qualquer olhar diferente, e não tem morada fora da mente de quem o concebe. As palavras são pilares inabaláveis sobre os quais se constroem universos, mas que nunca permitem vê-los. Para alcançar aquilo que elas sustentam é preciso derrubá-las, e tocar o subjetivo do autor, algo que, de fato, nunca é possível.

Um texto será sempre uma tentativa desesperada de transpor a prisão eterna que é a subjetividade humana, e será sempre em vão. Se não tem sucesso, pelo menos cumpre o objetivo de dar algum breve alento aos que sonham em ver o mundo do lado de fora um dia.

Ah, se o mundo não fosse tão real, tão sóbrio! Talvez nós seríamos felizes, os homens não seriam todos infiéis, nem  as mulheres todas lascivas por natureza.

Se o mundo fosse assim, tal qual imaginamos quando éramos embriões sociais – fetos protegidos no ventre de nossas mães-pureza, alheios à tentação do outro, do reflexo tentador dos semelhantes em nossas retinas – quem sabe a vida fosse justa, o amor sempre verdadeiro e superador de toda as coisas.

Talvez, se não tivéssemos esses mil olhos-de-maldade que nos guiam em completa cegueira, nem o cordão umbilical eterno que liga nosso umbigo à placenta da hipocrisia, o reinício da contagem dos dias no calendário pudesse ser chamado de “ano novo” com algum significado.

Se Deus fosse mesmo pai, realmente olhasse por nós e não nos culpasse por aquilo que somos (mesmo tendo Este nos feito à sua imagem e semelhança); se em nome d’Ele não se fizesse a morte e a destruição, então não seria demais a escola ensinar ou a família educar.

Não fossem almas atormentadas, corações partidos, psiques perdidas fingirem a lucidez por meio de palavras, quem sabe você, leitor, ainda permanecesse delirando/sonhando que pode ser feliz, e de fato assim fosse!