Costumo dizer que sou semi-nerd. Semi porque sou mais do que apenas um nerd. Mais no sentido quantitativo mesmo, não qualitativo – tenho muitos gostos e interesses que não apenas os do universo (assim chamado) nerd. Também não preencho todas as características de personalidade e/ou comportamento do nerd-padrão, se é que essa definição existe. Não obstante, meu gosto pela natureza científica de tudo, minha personalidade (originalmente introvertida e com pouca aptidão social natural), meu histórico de comportamento e a cultura que consumo desde a infância são mais do que suficientes para me encaixar dentro desse estereótipo. Meu trabalho também não me coloca em outro grupo, que não esse.

A verdade é que sempre fui um nerd, mesmo sem ter uma noção clara disso, e muito antes do tipo tornar-se popular, como recentemente aconteceu. Gostava de ficção científica, ficava horas a fio grudado no computador, lia quadrinhos, saía pouco de casa, destacava-me nos estudos, tinha medo de mulher e etc.

É  bem verdade que até há algum tempo atrás, do ponto de vista da sociedade, ser nerd era principalmente ser as últimas duas coisas citadas na frase anterior, e eu era assim também. O bom desempenho na escola nem era tão intencional e hoje pouco me importa se era consequência de uma (suposta) inteligência acima da média ou simplesmente uma cobrança pessoal maior do que o comum para um garoto da minha idade; ou se, pior ainda, era fruto de uma megalomania que desde cedo me compelia a querer ser melhor do que os outros naquilo que valorizo – nesse caso, o conhecimento. O medo de mulher… bem, esse sempre existiu e em parte existe até hoje – é caso para se explicar com muita análise e não com especulações de quem é leigo no assunto. Mas o fato é que naquela época, nos meus anos de escola, nerd era um termo em sua maior parte pejorativo, título que ninguém em sã consciência teria orgulho de ostentar, e eis que eu era um deles, mesmo que provavelmente não fosse admitir, se questionado ou assim rotulado.

A sociedade e a cultura mudam o tempo todo, devo ter percebido isso há algum tempo já. O que nunca imaginei é que em (relativamente) pouco tempo eu, involuntariamente, assim como todos de minha tribo (que eu nunca pedi para integrar), sairia do armário e diria à luz do dia, em público: Eu sou nerd!”. Vejam vocês, o que antes era motivo de vergonha agora passava a ser encarado de uma outra maneira pelas pessoas: com alguma admiração, com respeito, se não com certa inveja (não necessariamente a ruim, mas aquela que faz a pessoa ter vontade de ser igual, ter o mesmo).

Tendo vivenciado essa transição (mesmo que sem notar), como foi meu caso, olhar para trás e tentar entender como ela aconteceu é no mínimo interessante (e para um nerd, não vou negar, com um gosto a mais de redenção). Sem qualquer embasamento histórico maior, a não ser minha própria observação dos fatos,  nem quaisquer dados formais que comprovem o que vou dizer, creio que essa mudança ocorreu, em grande parte, devido à popularização dos computadores pessoais e, acima de tudo, devido à Internet.

Trollface - um meme que de certa forma representa o sorriso irônico de vitória do nerd.

Sim, realmente penso que a Internet foi a grande libertadora de todos os nerds. O que, aliás, parece-me bastante claro, para não dizer óbvio. Antes da Internet, o único relacionamento que se podia estabelecer diante de um computador era de uma pessoa para uma máquina. Isso, por si só, já limitava seu uso as aspectos técnicos das profissões ou atividades pessoais e além de tudo tornavam os computadores uma espécie de beco onde os menos aptos socialmente se refugiavam – eis aí a figura, sofredora de bullying, do nerd. A Internet mudou tudo quando tornou possível duas pessoas se comunicarem por meio dessas máquinas, substituindo o modelo de interação exclusivamente pessoa-máquina para um modelo social pessoa-pessoa. Estava incubada a alforria da nerdaiada, então. Mas algo ainda deveria acontecer para tornar essa “liberdade” uma realidade.

E é aí que surge um agente catalisador dessa mudança: um nerd que, sem querer, foi responsável pela maior ironia na história da trajetória (por vezes trágica) do nerd em meio à sociedade. No alto de sua inaptidão social e aptidão com computadores, esse sujeito vai lá e cria uma forma de se socializar por intermédio de uma máquina, mas de uma maneira muito mais intuitiva e próxima da realidade do que antes havia se pensando ou feito: uma rede social virtual. Um ‘nerd’ faz com que o seu “habit natural” torne-se uma extensão do “habit social” das pessoas “normais”. Uma grande piada: um nerd traz todo mundo para os computadores. O resto é história recente e todos, mesmo que não conheçam os detalhes, vivenciaram isso.

Hoje, mesmo aquele sujeito que de nerd não tem nada, fica horas no computador – colocando suas fotos da balada pra todo mundo ver, procurando meninas para tentar a sorte, conversando com os amigos por um comunicador, etc. Estar online às onze da noite do sábado já não é mais atestado de solidão e virgindade. Não que antes necessariamente fosse, mas agora todos entendem isso e o computador faz parte da vida de todos, não apenas de uma minoria “estranha”. As pessoas “tuitam” da balada, do show, postam informações com seus smartphones em tempo real ou chegam em casa de madrugada e vão escrever um post como esse. A Internet tornou-se uma extensão da vida de todos, da forma mais ampla possível, e os computadores também, por tabela.

Como consequência natural de tudo isso, o nerd ganhou seu lugar ao sol na sociedade. Hoje ele se vê retratado em seriados de TV (The Big Bang Theory é um sucesso, não apenas entre os nerds), tem eventos próprios, lojas especializadas em produtos de seu interesse, pode se dar ao luxo de dizer que “o nerd de hoje é o cara rico de amanhã” (e não adianta negar: ser rico é ser respeitado em uma sociedade capitalista), e tem até uma “cultura” própria, a chamada “cultura nerd. E curiosamente, elementos dessa cultura foram incorporadas à cultura pop que todos consomem, como os memes da Internet – frases, símbolos, vídeos ou qualquer tipo de mídia que algum nerd inventa e torna-se um viral, todos passam a usar, repetir e referenciar.

A situação chega a se inverter – o estereótipo que antes era negado, agora muitos querem comprar e vestir a todo custo, mesmo que não lhes sirva muito bem. O que é uma bobagem, pois um nerd não escolhe ser o que é – ele simplesmente tem esse jeito “diferente” de ser. E afinal, ninguém é igual a ninguém, não é?

Todo homem quer ter todas as mulheres do mundo. Que termine por aqui o parágrafo, dando a devida ênfase e importância que a sentença merece.

Não, não me venham falar das exceções. O mundo não se faz de exceções – em muitos casos, lamentavelmente. Estou falando das regras.

Um colega me diz que a namorada lhe cobra que nem sequer pense em outras mulheres e fico pensando o quanto de egocentrismo ou megalomania é necessário para que se faça uma exigência dessas. Ora, as mulheres precisam ter em mente, de forma muita clara e para seu próprio bem, que para os homens mulher é em primeira instância sempre comida. E ninguém sente ciúmes de um pedaço de carne, certo? Exigir que um homem deseje somente uma mulher é como uma mãe exigir que o filho só sinta vontade de provar a comida que ela faz.

Não, novamente não. Não significa que as mulheres sejam somente isso para nós, homens, mas a transformação delas em seres-humanos acontece em um estágio posterior da interação social, mesmo que esse processo seja tão instantâneo ou imperceptível quanto a “volta” de um elétron em torno do núcleo atômico. (“Volta” porque esse modelo de elétron que orbtita o núcleo igual planeta em torno de estrela é tão velho e superado quanto o modelo medieval de mundo plano.) Pode ser que demore muito mais, é bem verdade, o que invariavelmente é uma infelicidade para a parte feminina da relação, mas, em todo caso, é a partir desse novo patamar que surgem as amigas, as namoradas, as amantes, as paixões, o amor e tudo mais que se dá entre um homem e uma mulher na esfera psicológica. Especificamente quando se trata de uma relação conjugal, as chances de sucesso são naturalmente maiores quando a mulher unifica os dois papéis, o de ser-humano e o de comida.

Não é à toa que usamos um mesmo verbo para alimentação e sexo – a analogia é realmente adequada. Assim como podemos optar por restringir nossa alimentação, é perfeitamente aceitável que opte-se por adotar restrições na vida sexual, ou que se associe a questão conjugal a exclusividade sexual. É algo que está, obviamente, relacionado a padrões culturais, sociais, psicológicos, etc. O que não significa que as coisas mudem para o homem, que as outras mulheres deixem de ser o que são em sua forma mais elementar: comida. O que também não implica em um único padrão de comportamento masculino, uma vez que a razão nos permite optar quando e como usar os instintos. Existem modelos de relacionamento também, embora menos comuns, que separam a questão de amor e sexo, como acontece entre pessoas ligadas à indústria de entretenimento pornográfico, etc. É pura questão da semântica aplicada aos elementos da vida, e não há qualquer regra regra obrigatória, a não ser aquelas que escolhemos seguir.

Não me culpem por dizer isso assim de forma tão direta. Se posso assumir isso é porque tenho aquilo que o restante dos animais não têm: pensamento racional. E é justamente isso que torna plenamente possível ver o gênero feminino da espécie humana como algo além de um pedaço de carne, não raro imensamente superior, mais belo, mais complexo, mais admirável e mais fascinante. Não obstante, muitas vezes ainda assim um belo e apetitoso pedaço de carne. Que mal há nisso, afinal?

Corro o risco de ser acusado de porco-chauvinista e todos os outros adjetivos lugar-comum que o feminismo está acostumado a usar, e não me importo. Quem tiver olhos honestos para o mundo entenderá aonde quero chegar com essas palavras e não fará julgamentos em função delas.

Em meio à inexpressividade musical tão abundante atualmente, tantos novos trabalhos totalmente insignificantes de grandes artistas, eis que surge essa coisa magrela, cabeçuda e cor-de-fogo que é o Nando Reis, e faz uma música inadjetivável como essa Pra Você Guardei o Amor, sétima faixa do novo disco Drês.

–> Ouça aqui com a letra

NandoReisHá artistas que fazem música com instrumentos, e há seres distintos como esse cara, que fazem poesia com a alma. Embora o dueto masculino-feminino lindo com Ana Cañas e o violão de Nando timbrado no ponto  ainda dêem o tom intimista perfeito, uma simples voz a capela (o que de fato acontece) bastaria para dar os mesmos arrepios.

Pra maioria de nós, que nunca faz nada de bom com sua dor e desilusão fica aí um exemplo invejável do como um ser humano pode fazer de seu amor e sua dor uma expressão divinamente bela do que é não ser divino e sofrer.

Um artista que faz uma música como essa não precisa fazer mais nada até o fim da vida, que já terá feito muito.

http://nandoreis.terra.com.br/discos-e-letras/?letra=P

Como criança que era, tudo que eu queria naquele dia era ganhar um brinquedo. Esperei o dia todo, ansiando a chegada deles, não pensando em outra coisa, sonhando com aquele momento. Coisa de criança inocente, sonhadora, de poucas companhias, enfiada em seu mundinho próprio tentando torná-lo grande o bastante para lhe acolher confortavelmente. Ao final do dia, voltaram trazendo o objeto que outrora, por desconhecido e representante que era de toda uma imaginação movida a puro desejo e sonho, causara tanta inquietude: um disco de vinil.

Meu Deus, que decepção! Lembro-me como se fosse hoje. Continua gravado aqui nesse consciente, tão tangente a ponto de quase me causar lágrimas ainda agora.

Um LP de capa azul – em primeiro plano um robozinho de mão de pinça, luzes grandes coloridas resplandecentes, cabeça de lata abobadada, braços de mangueira de aspirador de pó, lembrava àquele do Perdidos no Espaço. (Vim a conhecer o seriado somente anos depois, mas me vem essa comparação à cabeça hoje.) Era um daqueles discos da Som Livre, comuns na época, com temática infantil: musiquinhas dançantes, cantantes e divertidas para crianças.

Não pra mim. Eu queria um brinquedo, droga! Uma jogo novo de massinhas de modelar da Estrela, um Comandos em Ação, um Lego, um Batman de brinquedo, um Superman, Aquaman, Homem-Aranha, qualquer um!

Chorei feito criança, tal que eu realmente era. Olhava aquele quadrado azul-colorido e tinha vontade de sumir. Temia ter que ouvi-lo por obrigação, para não mostrar a rejeição ao agrado dos pais. Pensava em tudo que aquele objeto devia ser e não era, e chorava novamente – se é que já havia parado.

Um tempo depois eu pedi de presente aos mesmos que me deram o disco azul maldito, vejam só, um disco! Que dessa vez fora escolhido e adquirido pelas minhas próprias mãos, embora não com meu dinheiro. Entrei na loja já sabendo o que queria e disse: “Quero aquele pendurado ali em cima”. Nem precisei procurar muito, escolher; era produto do momento. (Hoje não entendo muito bem o porquê, mas naquela época os discos ficavam às vezes pendurados nas lojas, como roupas no varal.)

A capa mostrava uma mulher em pose de dança, meio retorcida, atrás um fundo amarelado e tiras de todas as cores circundando-a, com os nomes das músicas seguindo esse mesmo sentido das faixas. Era o Disco 95, uma coletânea das músicas dance/disco que mais fizeram ou faziam sucesso no ano – uma espécie de Top Hits. Mais um da Som Livre, que naquela época ainda tinha vários lançamentos nesses moldes, mas dessa vez nada de música pra criança. Era música para jovem – para mim, menino petulante, presunçoso, que queria ouvir música de gente grande.

Escutei aquele disco por bastante tempo. Foi, das poucas experiências que tive com o vinil, a mais duradoura.

Logo veio o CD, e aqueles discos grandes e pretos se foram. Mal sabia eu o que estava por vir -  tanto em minha vida, quanto no mundo.

Descobri o mundo mágico dos discos, que então já eram menores, compactos, compact discs, e estes viraram meus objetos de desejo. Continuei ainda parcialmente decepcionado por não poder tê-los como queria. E não podendo comprar um CD, naquela época, você ficava sem música – não havia MP3 e internet para tornar tudo mais fácil.

Mesmo assim, os seis meses de espera entre um disquinho novo e outro eram recompensados por horas e horas de audição interminável, e devoração dos encartes.
Por vários anos em que esses eram meus objetos de desejo maior, tive poucos, mas que foram saboreados prolongadamente e em sua completude, cada um.

O tempo passou mais ainda, nem tanto assim, mas o suficiente para acabar também com esses disquinhos menores, e hoje eu sinto falta deles. Falta de desejá-los, de esperá-los, de não tê-los, e de quando tê-los, colocar neles toda a felicidade que um instante de vida pode proporcionar. Falta de não ter outra forma de saciar minha sede de música senão com eles.

Eu ainda, caso pudesse mudar os eventos do início de meus dias, escolheria ter ganhado um brinquedo, ao invés de um disco, naquele dia triste que não se apaga de minha memória. Mas ainda assim, gostaria de ter ganhado muitos mais discos como aqueles, em dias mais felizes do que aquele e do que estes de agora.

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