You are currently browsing the monthly archive for Janeiro, 2008.

Ele sempre foi sozinho, um pouco pelas circunstâncias, outro tanto por falto de jeito com o mundo. O que o incomodou até certa altura da vida, depois de um tempo tornou-se parte de um status quo que ele deixou de contestar.

Até que certo dia, sem esperar que muita coisa mudasse, ele encontrou alguém que lhe mostrou que o acaso poderia lher dar presentes com os quais jamais sonhara. Juntos, os dois foram felizes como nunca antes, descobriram prazeres, conheceram lugares, sensações, sentimentos, rotinas, e ele pôde entender porque dizem por aí terem sido certas pessoas feitas uma para a outra.

E do mesmo jeito que um dia deram as mãos um para o outro, quase sem notar, noutro ele fez com que se separassem, e embora tanto tenha dito depois, dentro dele muito ainda queria ser dito.

Ele queria dizer que naquele dia em que a deixou ir embora, chorou como nunca antes, debaixo do chuveiro, por uma dor igualmente inédita em sua breve existência. Dor essa que, embora fosse muito mais sóbria e consciente do que tantas outras já experimentadas, era também a mais profunda delas.

Queria dizer que ia carregar pra sempre aquele buraco dentro dele. E que quase tudo à sua volta ainda lembrava ela, e que o cheiro dela ainda estava em seus agasalhos. E que, aliás, aquele cheiro entrava por suas narinas tão dolorosamente como a lâmina de uma espada perfurando suas entranhas.

Queria dizer que o pequeno em sua casa ainda lembrava muito bem dela, e que era muito difícil dizer isso e não se afogar em lágrimas. E que era difícil até dizer aos amigos o que acontecera, de tanta vergonha que sentia.

Queria dizer que quase não acreditava que pudesse encontrar novamente outra pessoa tão bela quanto ela.

E que, embora não tenha dito antes, ele a amou da maneira mais pura e verdadeira que se pode amar alguém, e que no dia em que ela foi embora sentiu parte de si morrendo, e chorou muito. E que, depois de tê-la amado daquela maneira, passou a quase desprezar o amor que prende um homem a uma mulher, porque aquele sentimento significava muito mais do que outros.

Queria dizer que não era mais o mesmo, assim como sabia que ela também não era; e que o que lhe doia não era voltar a ser sozinho – pois a isso já era acostumado – mas era perder uma irmã que amava tanto.

Queria também, pedir desculpas por não mais conseguir ser poético, mas acontecera que metade de sua alma havia ido embora, e que tudo que fazia naquele momento era tentar recuperá-la. A porção que sobrara só dava contar de viver a vida, e não mais de senti-la.

Queria ter dito essas palavras, mas não disse por medo de fazê-la chorar outra vez.

 

Penso que te quero tanto
Quanto a qualquer outrem
E realizo que quero mesmo
A mim mesmo, só e inteiro

Porque estar completo
Não é possuir-te em nenhuma de tuas formas
Mas sim ter a mim, tanto
A ponto de não querer ter ninguém
Nem a ti

O que me falta sou eu mesmo
Que pensava não poder ser sem ti
Mas sou mais quando tu vais embora
E reencontro a alma que pensaste poder levar contigo

Aqui fico, comigo
Sem ti, sem ninguém
Nem a mim
Apenas a mim

——————————————————

Esse é praticamente o único poema que escrevi até hoje, há mais de dois anos já, num momento muito mais atormentado e lírico do que o presente. Gosto dele. Tenta sintetizar uma idéia que desenvolvi intuitivamente, por experiência própria, de que sentir-se muito vazio pela falta de alguém, é na verdade, não possuir a si mesmo, não ter identidade própria.

Aproveito para deixar uma frase do poeta Ledo Ivo, em seu livro Confissões de um Poeta:

“Na viagem da vida, não perdemos apenas os nossos dentes e cabelos. Também os nossos incontáveis e sucessivos eus vão caindo como penas.”

Tudo bem, sei que sou chato e vivo a botar defeito em tudo, mas, poxa vida, vejam se não tenho razão.

:: Pra começar…

Cidade NegraO Cidade Negra agora vai lançar um cd/dvd com clássicos da música brasileira, transformados em reggae. Ou seja, os caras vão pegar belas canções, todas já consagradas, e estragar. Não que o problema seja o reggae, embora eu não goste. O problema é pegar canções que foram concebidas em outro formato, e encaixotar todas dentro de um ritmo monotônico, como este. E volto a repetir, o problema não é o tal do ritmo jamaicano. O reggae é feito pra ser daquele jeito mesmo, com uma batida repetitiva, com poucas variações harmônicas, e dá conta de fazer o que se propõe a fazer. O problema é fazer de uma música do Chico, do Renato Russo, um reggae. (O que é muito diferente de Gil gravando Bob Marley, o que tem absolutamente tudo a ver.)

:: Prosseguindo…

Led ZeppelinO que há em comum entre Smashing Punpkins, Genesis, Mutantes, Van Halen, Police, Rage Against The Machine e Led Zeppelin ? Obviamente, são bandas de rock, mas há um detalhe muito mais específico, nesse caso. Todas essas bandas (e muitas outras) encerraram suas atividades há algum tempo, e recentemente voltaram a tocar – algumas fazendo turnês, outras em apresentação única. Até os Doors arrumaram um vocalista meio cover do Jim Morisson e tocaram!!! Ah, o Karnak também voltou a se apresentar (pra minha felicidade). Até o impossível: os Sex Pistols tocaram juntos novamente!!! Os caras provavelmente nunca mais pegaram numa guitarra, desde Nevermind The Bullocks!!!

É claro que não é por acaso que Sting passou por cima das diferenças com seus ex-companheiros de banda, Stewart Copeland e Andy Summers, assim como Zack de la Rocha também voltou a olhar na cara de seu ex-companheiros. Também não é por acaso que vimos em cima dos palcos um Jimmy Page de cabelos totalmente brancos, que mais parecia uma mistura de Cauby Peixoto com Dr. Emmet Brown de De Volta Para o Futuro.

Todos eles perceberam e atenderam a uma demanda do mercado por aquilo que foi feito até algumas décadas atrás, e não se faz mais hoje: música autêntica, original. Não é de chamar a atenção que uma multidão de gente esteja lotando estádios ou se estapeando por ingressos pra ver um monte de bandas antigas tocando outra vez? (Tudo bem, caras saudosistas, como eu, que gostam de qualquer coisa que cheira a naftalina, fazem isso mesmo, mas são minoria.)

E parece que o negócio pegou mesmo. Tá todo mundo entrando nessa, já que pôde-se ver que vai dar dinheiro, ou pelo menos, uns últimos suspiros de fama. Nada contra, mas isso vem confirmar a acusação de que o que se faz hoje em dia, na melhor das hipóteses, é uma releitura da obra de artistas de outras épocas.

Nesse cenário de massificação cultural e falta de originalidade, o revival de bandas e artistas já consagrados é um prato cheio para artistas, público e empresários.

:: E finalmente …

No meio de toda essa recauchutagem artística-cultural, vi uma coisa muito legal. O Biquini Cavadão (banda que não me agrada nem um pouco) fará dois lançamentos. Um álbum de inéditas, e outro duplo, com regravações de seus próprios sucessos. É claro que não passa de um oportunismo em cima daquilo que já é garantia de aceitação comercial – coisa que toda banda brasileira de rock dos anos 80 já fez, ou está fazendo – mas acho legal ouvir os antigos sucessos de uma banda depois de seu amadurecimento musical. Os arranjos geralmente ficam melhores, a pegada também, e o som invariavelmente mais bem gravado e produzido.

Já que hoje em dia não se faz muita coisa que não seja reaproveitando o que já foi feito, vamos voltar a vender os originais.

:: Ressalvas

Eu realmente acredito que o há de melhor na música mundial, já foi feito até o final dos anos 70 ou meados dos anos 80. O que vem a seguir são só releituras, cuja originalidade tem se perdido cada vez mais, à medida em que os anos passam.

Apesar disso, ainda gosto e escuto muito coisa que se faz hoje, especialmente aquilo que o mercado passou a chamar de alternativo – mas que pra mim significa autêntico.

( E também escuto porcaria, quando me agrada. )

Depois da tempestade sempre haverá de raiar o sol e é bom que você esteja lá, de pé pra ver. De pé para se aquecer, ou para esperar a chuva passar, tanto faz.
Pode ser que a água cesse de cair um dia ou não, mas quando parar, e se parar, lembre-se de que um dia choveu frio e ventou forte. E que assim como o sol talvez queime agora, amanhã a chuva pode nos rasgar a pele.

O que importa não é esperar, mas sim ter esperança. Esperança no desconhecido, naquilo que é impossível mas que por desconhecer você espera.
Ter esperança não é ser otimista. Ter esperança é teimar com o tempo, é querer estar lá todos os dias para ver o que vai acontecer – é querer cobrar da vida o que ela ainda não te deu.
O segredo é saber extrair o melhor de casa ocasião. É ter prazer ilimitado nos momentos de felicidade e aprender com as desgraças – é registrar sua existência nas linhas do tempo da melhor maneira.

E é por isso que existe vida na Terra. É por isso que cada ser vivo luta até o último instante pela vida: pelo direito de esperar acontecer o que ainda não aconteceu. Pela vontade de acordar vivo cada novo dia sem saber o que lhe espera, tendo apenas a certeza de que pode ser feliz ou não.