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Eu sou mesmo um cara estranho, não sou ? Pelo menos é o que sempre ouço por aí: que sou diferente. Estranho, diferente, tanto faz. Qualquer um que não seja igual a todo mundo, que não faça as mesmas coisas, é estranho, não é?

Onde já se viu um homem que não gosta de futebol, nem de veículos automotores? Não toma café. Ah, faça-me o favor! De que planeta eu vim? Brasileiro é que não sou. E sempre tem alguém muito criativo pra fazer a piadinha: “Deixa eu adivinhar. Não gosta de futebol, de carros… De mulher também não? Hahaha…” Claro!!! Afinal, há uma relação direta entre futebol, carros e atração por mulheres, pense bem.

Pior. Sou noveleiro desde moleque, lembro das personagens, conheço os atores, os autores. Sou detalhista, reconheço o rosto das pessoas pelo traços marcantes, reparo nos mínimos detalhes à minha volta e associo, pra tirar conclusões. Noto quando uma mulher corta o cabelo ou pinta, elogio se elas estão bem vestidas. Gosto de dar atenção ao mais velhos, ouvir o que eles têm a dizer, por mais humildes que possam ser. Uso anel no dedo, pulseira no braço. Falo pelos cotovelos. Não sei dirigir. Não sei pegar mulher em balada. Não tenho xaveco furado. Me dou bem com amizades femininas.

Deus, eu sou o anti-machão!

Mas veja só se não é pra estranhar mesmo. Eu ouço Tom Zé, Karnak, Funk Como Le Gusta, Móveis Coloniais não sei do quê, umas bandas de rock antigas. Puts, eu vi um show do Tom Zé uma vez, e falo como isso tivesse sido a coisa mais louca do mundo! Sonho em ver um do Karnak. Fico falando por aí que vai ter show do Nação Zumbi, do Lenine, falo do Chico Science, cito o movimento manguebeat. Quem quer saber o que é manguebeat?

Espero ansiosamente, todo ano, pra ir pra um festival de música universitário, ficar lá de qualquer jeito, dormindo no meio de uma quadra, respirando marofa de beque dia e noite. Batuco na mesa, toco bateria, guitarra, tudo no ar, e canto dentro do meu quarto. Faço piada de mim mesmo na frente de todo mundo.

Fico pensando na vida, conversando com as pessoas sobre o sentido do mundo à nossa volta. Me apaixono, sofro feito um condenado. Digo que só consigo permanecer junto de alguém se amar, que relacionamento tem que ser comunhão. Não admito traição. “Mas poxa, homem trai, é normal !” De novo essa ladainha…

Reclamo do que tem na mídia, falo que o capitalismo é uma merda que só fode com mundo. Não dou bola pra formalidades, obrigados, bom-dias e boa-noites. Falo palavrão na frente do chefe.

Nunca gosto de nada: nem da Ivete, nem do CPM, nem do Windows, nem do Iron Maiden, nem do Bruno e Marrone. Caramba, mas todo brasileiro sabe que a Ivete é deusa! Não pode, é como não gostar do Robertão! E a Gisele Bundchen? Mulher sem graça. “Ah, cala a boca, você come cocô!”

Ah sim, eu ainda escrevo! Fico me preocupando com linguagem, em não escrever errado, respeitar gramática. Deve ser pra me aparecer, pra ganhar evidência, por ser “diferente”. Porque hoje, ser diferente também é status. Todo mundo quer ostentar sua “diferença” como artido de luxo, ou souvenir.

É, só pode ser mesmo. ( Afinal, esse é um site pessoal, e é natural que eu fale de mim às vezes. )

Vocais femininos, em geral, não me agradam, sejam solos ou em bandas. Eis a seguir uma exceção.

Vanessa Krongold, vocalista da banda paulistana Ludov, tem um vocal impecável: timbre lindo, afinado, sedutor, hipnotizante e apaixonante. É sexy, mas meigo também; às vezes áspero, mas sem deixar de ser gentil. Ouvi-la cantar dá vontade de transar (com ela!).

Ludov

Baixinha, dona de uma quase-beleza estranha, passa aquela imagem de roqueira que não esquenta muito com sua própria imagem e está sempre com um pouco de olheiras e cara de chapada, mesmo às quatro da tarde numa unidade do Sesc do interior. Parece um pouco metida, do tipo que não gosta de muita badalação – mas essa impressão permanece incerta, confundida por sua presença tão radiante, quanto obscura. Fica difícil dizer se ela é realmente tão sexy quanto parece, ou se é apenas um efeito similar ao do canto das sereias.

Os rapazes, Habacuque, Mauro e Chapolim, são todos muito receptivos e simpáticos, e aparentam humildade. Talvez até mesmo por serem músicos independentes, que sobrevivem e fazem sucesso por seu próprio valor, sem participarem do esquema corruptos das gravadoras, que promovem os artistas como astros que eles não são.

Habacuque – um cara baixinho, que conversa com você depois do show sobre a própria carreira da banda – empunha uma Fender Telecaster na maioria das bases, tirando um timbre vintage lindo, perfeito! Mauro Motoki, um japa magrelo, completa com uma Gibson semi-acústica, e ataca vez após vez no piano/orgão. Chapolim segura a levada do som deles numa bateria básica e certeira. O baixo eles revezam, agora que um integrante saiu. A Vanessa, fica lá no meio deles, como se ela fosse a Princesa do hit homônimo, e tivesse os outros rapazes a seus pés, a espera de seus comandos. Ela arrisca uma guitarrazinha aqui ou alí também, canta, pisa forte no chão e faz algumas caretas.

Precisei de um certo tempo, até que conseguisse assimilar completamente o som da banda, e perceber sua beleza grandiosa. O primeiro álbum é um tipo de pop/rock que eu definiria como música de mulherzinha. Não que isso o torne menos delicioso! É leve, dançante, cantante – pop/rock brasileiro da maior qualidade. O segundo, lançado ano passado, é mais obscuro, mais pesado, com sons mais carregados, arrastados, muitos menos coloridos do que o primeiro, e por isso mesmo, uma obra prima de uma banda de rock de verdade, que amadureceu muito desde seu primeiro sucesso popular, e que agora é capaz de compor canções mais lindas ainda.

Engana-se quem se deixa levar pela aparência inocente de suas músicas, especialmente as do primeiro álbum. O Ludov é uma usina de música boa, e doce.

Eu, que não sou dado a patriostimos, chego a ter um grande orgulho do meu país ao ver bandas nacionais como essa e tantas outras, que fogem da mesmice e da mediocridade que inundam nosso mercado fonográfico, fazendo um som acessível e de grande valor artístico, como esse.

Ouçam, e apaixonem-se a cada acorde.

Nada mais adequado à juventude descerebrada que habita a “casa mais vigiada do País” do que um show da banda Capital Inicial. Assim como seu pai, Boninho não erra uma! Tá no sangue, alguém duvida?

capital_bbbDinho Ouro Preto e sua turma mostraram, como sempre, todo aquele rock´n´roll juvenil de sua fase pós-droga e pós-underground, em meio aos rebolados hipnotizantes daqueles corpos femininos demoníacos das participantes, que pareciam mesmo embaladas por um funk. Valha-me Deus, qualquer homem desse país mataria pra ter uma mulher daquelas, uma noite que fosse! E por isso mesmo, todos sabem que o lugar daquele rebolado perturbador é outro, não alí, em frente a uma banda de rock, cuspindo um timbre distorcido de seus amplificadores Marshall.

O Capital Inicial, uma banda que brotou na cena punk brasiliense dos anos 80, e que ajudou a forjar o rock brasileiro, junto de conterrâneos como Legião Urbana e Plebe Rude, hoje encontrou a fórmula perfeita do sucesso, da aceitação popular e do dinheiro. Compraram uma máquina muito modernosa, onde de um lado eles colocam um bocado de dinheiro da gravadora, e do outro saem músicas novinhas, bem gravadas e produzidas, que não dizem nada e são todas iguais umas às outras, mas que vendem mais do que revistinha de sacanagem entre a molecada.

Tá, tudo bem, eu ouvia isso até os 16 anos de idade. O albúm acústico é um belo trabalho, principalmente pela força das canções históricas do Aborto Elétrico, dos arranjos de cordas muito bem feitos, e do violão de outro cara importante no rock/pop brasileiro – Kiko Zambianchi – e tem seu lugar garantido na prateleira dos bons discos dessa década. Um adolescente, como eu era à época, ainda seria capaz de engolir o trabalho seguinte, Rosas e Vinho Tinto, mas o que se seguiu já era demais pra alguém com mais do que alguns poucos pelinhos pubianos.

O que a banda faz hoje é um som estéreo e também estéril, com o perdão do trocadilho. Muito equipamento, muitas trocas de guitarras (caríssimas) de Yves Passarel, algumas outras (igualmente caras) vez ou outra sofrendo nas mãos de Dinho. Muito dinheiro pra pouca coisa. Muito som, e pouca música.

Se eu queria estar lá, assistindo a um show VIP do Capital Inicial, rodeado por gostosas rebolativas? Mas é claro!!! Mas isso são outros quinhentos…

Já que se falou de narcotráfico, aqui vai um texto um tanto esclarecedor sobre o assunto:

>> http://www.fazendomedia.com/2008/politica20080214.htm

Artigo publicado na Caros Amigos desse mês, e veiculado na internet. Leitura importante, principalmente pra quem forma opinião lendo Veja e os jornalões, e depois acha que entende do assunto.