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Muitas das coisas às quais as pessoas se apegam fortemente em suas vidas e têm como certeza (que não contestam), é porque já se acostumaram ou investiram muito nelas. Isso acontece o tempo todo: no amor, na religião, com a família, a profissão. Nem sempre existe uma crença tão arragiada em seu íntimo, mas apenas a necessidade de não jogar fora tudo em que se apostou até o momento – seja o relacionamento de longos anos, ou a profissão de uma vida toda.

Não cabe aqui julgar em quais aspectos da vida de cada um isso acontece. Basta apenas observar que parte daquilo em que se acredita, e que se leva adiante por toda a vida, foi erguido por sobre o medo de mudar e perder o que se tem, ou desperdiçar o esforço despendido para obtê-lo.

É preciso uma boa dose de ousadia e fibra pra assumir que, depois um certo tempo, acreditamos em mentiras que contamos pra nós mesmos.

A caridade é a mais dissimulada e oculta demonstração do egoísmo humano. Diga-se de passagem, egoísmo esse que assimilamos desde pequenos nessa sociedade individualista e mercantilista em que vivemos. Antes fôssemos apenas egoístas – ser caridoso é muito pior. A caridade vem disfarçada de generosidade.

Não é de se espantar que sejamos assim, observados os valores difundidos pelo mundo capitalista em que nos formamos, mas é de se dununciar que usemos esse tipo de artifício para forjar uma imagem daquilo que não somos, – generosos – ocultando a real motivação por debaixo dos panos: expiar nossos pecados contra o próximo e diminuir o peso da responsabilidade pelo mundo desigual em que vivemos.

As pessoas fazem caridade para sentirem-se melhores consigo mesmas, pra colocarem as cabeças em seus travesseiros mais tranquilamente, apenas por isso.

Doa-se apenas aquilo que sobra. Ninguém doa o que lhe fará falta.

Onde está a abnegação e a generosidade de quem dá aquilo que não lhe tem importância, ou que lhe abunda?

Ato de caridade é esporte comum da elite. Não por acaso, sua especialidade. Já que todo rico corre muito mais o risco de queimar no fogo do inferno, do que seus semelhantes menos favorecidos. Por compactuarem, e principalmente, promoverem a perpetuação da desigualdade social, ao final do dia, precisam de uma maneira de livrarem-se dessa culpa (e da fornalha do chifrudo, claro). Pronto, eis aí a caridade, que vem expiar a culpa e de quebra render uma boa imagem, tudo sem gastar muito dinheiro.

É comum por aí os clubinhos da classe, onde só participa gente que tem grana e poder, mas que vive fazendo o bem para o próximo – o mesmo próximo que se explora e se ajuda a manter segregado, todos os dias, geralmente abusando da mais-valia marxista sem o menor pudor. Aliás, o próprio dinheiro gasto nisso vem dessa mesma fonte.

Ainda sobra espaço pra idiotas socialites burgueses como o Luciano Huck, que vem a público proclamar sua nobreza espiritual e exemplo de cidadania, por dar esmola na televisão, submetendo pobres coitados a humilhações e constrangimentos em rede nacional. Pessoas de ego já tão reduzido pela própria vida que levam, que aceitam qualquer coisa por alguns trocados (porque dez mil reais são sim, trocados pra uma emissora de televisão), uma reforma na casa ou no carro. (Como no caso de um participante que quase disistiu da oferta, por não querer submeter-se ao ridículo de cantar uma música de Erasmo Carlos, ao vivo, no palco do programa. Acabou aceitando, claro, tamanha a pressão psicológica.)

Não faça caridade. Não dê aos seu semelhante o seu resto. Assuma que você é um sujeito egoísta e que vai para o inferno, assim como todos nós. Quem sabe você não vá para o purgatório, pelo menos.

Escrever é um ato de desespero. Surge da necessidade que temos de nos livrar de idéias e sentimentos que tornam-se inconvenientes, em busca de alívio.

Quando escrevemos, desapropriamo-nos daquilo que corrói nosso espírito, e entregamos ao leitor, que poderá fazer das palavras o que bem entender. O destino delas pode ser qualquer um, desde que não nos pertença mais.

Escrever é um ato de libertação. Significa envaziarmos a nós mesmos, para que possamos novamente nos encher de vida, dia após dia. Ninguém é capaz de suportar seu próprio sentimento por muito tempo – seja a maior das felicidades ou a angústia mais crua. Assim como ninguém pode conviver demasiadamente com o que pensa.

A escrita é a descarga de nossa psique. É preciso puxá-la regularmente, a fim de desobstruirmos o caminho entre o mundo e nossa consciência.

Eu escrevo não porque quero, mas porque preciso.

Ela gosta de dançar. Gosta porque a faz se sentir viva, dona de seu corpo. Um corpo esbelto e de formas saborosas, tão provocantes quanto singelas, suavizadas pelo tom de pele claro.

Vai arrumada, sensual, mas não quer chamar atenção, nem conquistar alguém: ela já tem um amor. Quer apenas olhar pro espelho e se sentir mulher.

O sorriso constante em seu rosto é de alguém que está em paz consigo mesmo. Alguém que já tem tudo de mais importante na vida, e se sente leve para celebrar sua própria felicidade.

Ela dança a noite toda, numa busca involuntária por algo que acalme o vulcão que a queima por dentro – o vigor de sua juventude.

Ela é a mulher mais linda, mais sensual e mais feliz alí, naquela noite, e talvez nem tenha se dado conta disso.