Sou demasiadamente humano.

Humano que erra demais, sonha demais e almeja compartilhar do mundo dos deuses. Erro irreparável! Os deuses não devem ser tocados.

Mais do que isso.

Almejo igualar-me a um deus, mas todos os dias vejo-me inevitavelmente limitado em cada uma de minhas faculdades.

Sonho o tempo todo, sou herege comigo mesmo. Os deuses não têm sonhos, eles vivem os nossos.

Amaldiçôo o momento em que adormeço desperto e sou submetido aos desmandes da imaginação e do desejo – a mais primordial penalidade que nossa condição humana nos impõe. Acordar, por sua vez, é libertação e prisão.

Frustro-me por não ter a capacidade de controlar minha própria natureza – paradoxal, conflitante e insaciável.

Amo demais.

As mulheres, as canções, os sabores, as histórias de vidas, as palavras… tanta coisa, que mal sobra amor pra mim mesmo. Esqueço-me de que o mundo está dentro de mim e não lá fora.

Ponho-me a  pensar em quantos sorrisos já perdi na multidão, e quantas vezes não pude tocar aquilo que via com desejo ardente. Perco a conta, mas nem mesmo quero fazer a conta.

Esqueço o passado, evito o presente, e não penso no futuro. Perco-me em micro-abismos pelo caminho do cotidiano, e sofro ao não me reecontrar.

Vivo sem fazer distinção entre o concreto e o abstrato, tampouco entre aquilo que é meu e o que é do outro. Sinto como se já tivesse vivido em todos os corpos, mas nunca emergido pra realidade.

Quisera eu, poder verter em palavras aquilo que sinto. Quisera eu, ao menos sabê-lo.