Sou demasiadamente humano.
Humano que erra demais, sonha demais e almeja compartilhar do mundo dos deuses. Erro irreparável! Os deuses não devem ser tocados.
Mais do que isso.
Almejo igualar-me a um deus, mas todos os dias vejo-me inevitavelmente limitado em cada uma de minhas faculdades.
Sonho o tempo todo, sou herege comigo mesmo. Os deuses não têm sonhos, eles vivem os nossos.
Amaldiçôo o momento em que adormeço desperto e sou submetido aos desmandes da imaginação e do desejo – a mais primordial penalidade que nossa condição humana nos impõe. Acordar, por sua vez, é libertação e prisão.
Frustro-me por não ter a capacidade de controlar minha própria natureza – paradoxal, conflitante e insaciável.
Amo demais.
As mulheres, as canções, os sabores, as histórias de vidas, as palavras… tanta coisa, que mal sobra amor pra mim mesmo. Esqueço-me de que o mundo está dentro de mim e não lá fora.
Ponho-me a pensar em quantos sorrisos já perdi na multidão, e quantas vezes não pude tocar aquilo que via com desejo ardente. Perco a conta, mas nem mesmo quero fazer a conta.
Esqueço o passado, evito o presente, e não penso no futuro. Perco-me em micro-abismos pelo caminho do cotidiano, e sofro ao não me reecontrar.
Vivo sem fazer distinção entre o concreto e o abstrato, tampouco entre aquilo que é meu e o que é do outro. Sinto como se já tivesse vivido em todos os corpos, mas nunca emergido pra realidade.
Quisera eu, poder verter em palavras aquilo que sinto. Quisera eu, ao menos sabê-lo.

4 comments
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15 Maio 2008 às 2:45 am
eder fonseca
olá caro poeta conterrâneo,
vejo que continuas a escrever, muitíssimo bem por sinal.
aproveito pra deixar um texto meu: http://eder-fonseca.com.br/ss-v1-2007/index.php?entry=entry080514-175737
um abraço,
eder.
15 Junho 2008 às 5:33 pm
Anônimo
De quando em vez páro a agulha do meu tempo desorganicamente dividido entre trabalho, leituras e sonhos pra vir sentir um pouco do seu ser. E essa sensação de cumplicidade que me invade dá o alívio sorridente de ver uma bolha de sabão estourar: você sabe que vai acontecer, só não sabe quando! E olha, espera ansioso, feliz por ter criado a maior de todas e já levemente triste por esperar seu fim. Era sua, não é mais; o fim de ser criada é pra explodir. Que coisa mais sem sentido não?
Devaneios a parte, preciso da sua bolha de sabão e ver que ela explode como a minha, já bipartida desde o início, mas soprada aos ventos, toda espetáculo furtacor.
Minha bolha de hoje levou todo meu ar embora, estava na hora de romper-se e fazer meus olhos piscarem e meus pulmões (sus)pirarem aliviados.
Gracias muchacho!
Eloisa
15 Junho 2008 às 5:34 pm
Eloisa
De quando em vez páro a agulha do meu tempo desorganicamente dividido entre trabalho, leituras e sonhos pra vir sentir um pouco do seu ser. E essa sensação de cumplicidade que me invade dá o alívio sorridente de ver uma bolha de sabão estourar: você sabe que vai acontecer, só não sabe quando! E olha, espera ansioso, feliz por ter criado a maior de todas e já levemente triste por esperar seu fim. Era sua, não é mais; o fim de ser criada é pra explodir. Que coisa mais sem sentido não?
Devaneios a parte, preciso da sua bolha de sabão e ver que ela explode como a minha, já bipartida desde o início, mas soprada aos ventos, toda espetáculo furtacor.
Minha bolha de hoje levou todo meu ar embora, estava na hora de romper-se e fazer meus olhos piscarem e meus pulmões (sus)pirarem aliviados.
Gracias muchacho!
Eloisa
02 Maio 2009 às 4:30 pm
Edson
Precisa sonhar para não morrer de realidade, a solidão é um estigma presente nessa sociedade, egoísmo tb, enqto não aprendermos a amar, ficaremos assim, em tempos passados, nossos principais dificuldades eram as intempéries, a falta de alimento, abrigo, aí alguém inventou a propriedade privada, e com a desculpa de que precisávamos dominar a natureza,cada vez mais que nossa vida melhoraria e alcançariamos a momento de felicidade e paz, e os séculos foram, acompanhado do desenvolvimento da técnica e do conhecimento e complexidade, só que a cada dia, nossa vida fica pior que antes, a maldição do fruto do conhecimento, da caixa de pandora, e outros mitos semelhantes, vem ao nosso encontro, advertências de um arquétipo perdido na escuridão dos tempos, de um conhecimento oculto, cujo significado exato talvez nunca saibamos, mas a esperança continua sendo o último bastião, que o diga Auschwitz.