O samba não morreu, nem o rock acabou, mas broxou. Bom, pelo menos esse que a gente vê lotando show por aí, nem catuaba, ovo de codorna e amendoim levantam. Tadinho, tão novinho e já tão ruinzinho de serviço. Deve ser por causa da pressão psicológica desses tempos modernos, essa necessidade de ser sempre melhor do que no dia anterior. Ou deve ser o mal do século: o estresse, a depressão, os problemas psicológicos. Sei lá, sei que não levanta (o público).

Pior, o rock new generation anda perdendo feio pra seus progenitores, muito mais velhos, porém vigorosos e viris até hoje.

Basta ver um show da Pitty pra entender isso. A baiana até tenta honrar seu estado natal, de onde vieram alguns roqueiros ilustres, como Raul, Marcelo Nova, mas não consegue. O vírus do rock’n'roll já sofreu muita mutação desde que surgiu, passou a ser modificado, sintetizado em laboratório, e hoje em dia não contagia mais ninguém. Ou talvez – pensando numa outra explicação biológica – o gene mutante do rock já tenha se perdido, dada a quantidade de mortes prematuras dos indíviduos portadores da anomalia genética.

Sei lá eu. O que eu sei é que assistindo a um show da Pitty, num parque aberto cheio de gente, numa tarde muito bonita – cena que lembrava os festivais de rock ao ar livre – palco perfeito pra uma catarse, o que se viu foi uma roqueira anêmica e um público frígido. Deve ser a dengue, ou o sol escaldante dessa cidade, só pode.

A baiana não é tão tosca assim, coitada. Ela é gente boa, faz aquilo como se fosse a coisa mais fantástica do mundo, até parece se esforçar, mas não convence. A banda toca bem, bem ensaida, entrosada, som homogêneo, mas falta o borogodó.

É uma boa oportunidade de se perceber o que é a tal da atitude rock’n'roll de hoje. Pitty finge atitude, mas de fato não tem nenhuma. Ficaria melhor se ela não tentasse falar palavrão e fazer pose de “que se foda”. Aliás, feio mesmo ficou ela ter feito propaganda da lojinha da banda, e depois ter dito: “Quem quiser comprar, massa, quem não quiser também, que se foda!” . Peraí? É assim então? Se eu não quero comprar, tenho que me foder? Ah… não, ela quis dizer: “Quem não quiser comprar, tudo bem, não muda nada pra mim”. É, então é bom aprender a se expressar direito, porque pegou mal. O público berrou “yeah”, como sempre, claro. Essa é a atitude do rock de hoje – palavrões e gritos estéricos sem motivo ou intenção.

O público nem se mexeu durante o show. Guitarra distorcida, bateria nervosa, e jovens parados. Alguns movimentos de tronco, cabeça pra frente e pra trás, só isso. Nem um pulinho, um mosh, alguém tentando subir no palco, nada. Espetáculo pra família e pra criançada.

O rock de hoje é pasteurizado, e o público também. Ambos saem da fábrica já esterilizados, limpinhos, livre de bactérias e com pouca gordura. Quem toma, já sabe que não vai dar indigestão no outro dia, mas também não sente aquele sabor da têta da vaquinha mimosa.

Não é culpa dela, a moça até que é esforçada, inteligente, bonitinha. O problema tá no sangue anêmico dessa nossa geração desnutrida, que cresceu comendo enlatado cultural e outras porcarias, e carece de sustância, como nosso avós (roqueiros) diziam.

Pra entender o que é um show, e um público de rock, basta assistar a um show dos Móveis Coloniais de Acaju (em Goiânia ou Brasília, de preferência!!). Depois venha me falar o que achou.