E o amor, hein? Alguém sabe por onde é que ele tem andado? Acho que a última vez em que o vi, estava na novela. E mesmo assim, a gente descobria no final que era de mentira.

Tá, quer mesmo saber? A verdade é que o amor tornou-se demodê. Foi pro brechó, juntar-se a tantas outras humanidades já descartadas por falta de uso: família, casamento, religião, bom-gosto – essas coisas cafonas do tempo de nossos antepassados. Sério. Está tão ao relento quanto toca-disco, fita-cassete, peão.

Só resta ao desprezado amor, habitar a poesia, as histórias fictícias do cinema, da literatura e as alegorias do marketing. Em nossas vidas, virou frase feita, disparada por reflexo em situações onde não há para onde correr. Deixou de ser um baluarte da experiência subjetiva do homem, e adquiriu uma natureza meramente verbal.

“Mas ele diz que me ama.” Jura que isso é o melhor que ele sabe fazer? Peça para que ele se lembre disso todas as vezes em que te fizer sentir preterida e em segundo plano, todas as vezes em que te fizer chorar. Que cabimento há em provar o amor por meio de sucessivas e intermináveis declarações, até que a dúvida do outro seja vencida pelo cansaço?

Euteamos não amam a ninguém.

O amor não precisa ser declarado verbalmente, assim como não é preciso anunciar o nascer do sol ou o ondular do mar. O amor simplesmente toma conta de quem ama ou é amado.

Aliás, os homens das gerações mais recentes morrem de vergonha de admitir que amam. Disfarçam, desconversam, abusam de eufemismos, e quando declaram é com grande constrangimento, principalmente perante outros do gênero. Ninguém quer assumir uma caretice dessas.

Disseram-me: “Você está muito social, político. Fale sobre você, sobre a vida.” Pensei: “Perfeito, vou falar sobre o amor!”

Eu não acredito nesse amor que se vê por aí hoje em dia na ponta da língua de todo mundo. Não acredito no amor do seu amado(a) por você. Nem nesse seu amor por ele ou ela, por mim, ou por qualquer um de nós.

Acredito mesmo é que, atualmente, as pessoas dividem-se apenas em dois grupos: os mal-amados, e os que acreditam em Papai Noel.