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Freqüenta restaurantes com os amigos; vai a barzinho todo final de semana. Bebe cerveja, mas não porque gosta. Na verdade, odeia, mas é que todo mundo bebe e não vai ser ele o careta da turma.
Veste roupa de marca – quando vai ao shopping sempre volta com alguma sacola de grife na mão. Tem comprado número 44 ao invés dos 40,42 de antes; G, e não mais M – comer fora tem lá suas desvantagens também. Mas agora faz academia no final das tardes, tem certeza de que vai ficar em forma de novo.
Mora em apartamento no centro da cidade: sofá bonito, tapete novo, cortina na janela. Não cozinha, não lava, não limpa chão.
Fez cursinho, tentou entrar num curso de trinta por vaga, e entrou. Vai ser juiz, médico, empresário, executivo; vai ser cidadão, participar da nossa “democracia”. Vai determinar o destino de muitos outros – pobres, ignorantes que ele nunca viu na vida.
Fica horas no telefone, falando com as meninas. Vai pra balada, pega um monte; contabiliza tudo. Vai pra praia, pega mais ainda.
Desfila de carro com namoradas gostosíssimas – peitos grandes, coxas saradas, salto agulha, luzes no cabelo, olhos pintados. Vai ao motel pra transar. Nunca dormiu e acordou com a mesma mulher por alguns dias, debaixo do mesmo teto.
Não trabalha, não tem renda, mas sabe muito bem como funcionam os negócios, como se ganha dinheiro.
Pega o carro do pai nos finais de semana, só enquanto não ganha o seu. Vai fazer intercâmbio nas férias.
Nunca teve coragem de usar drogas ilícitas. Acha que maconha é coisa de vagabundo.
Assina Veja, mas só folheia. (Ufa… menos mal.) Assiste a futebol pela tevê a cabo. Escuta poperô no emepê-quatro.
Entra no Orkut de vez em quando, pra mandar um scraps. Nunca escreveu uma carta pra alguém.
Ainda não sentiu o peso da vida, e nem vai sentir. Sempre teve tudo de sobra.
Vai ter um filho, e vai dar a ele a mesma vida que teve.
Apenas mais um burguês, como tantos outros.
E você - pobre, de família pobre, proletário que pega coletivo pra trabalhar, que cozinha o arroz e feijão que come, que parcela em três vezes o all-star que calça; que é apaixonado pela arte, quer ser erudito; que escreve o que ninguém lê; que não pega ninguém, não é bonito; que anda a pé - (mesmo assim) é convicto de que tem muito mais do que qualquer burguês que anda por aí, e ninguém te convence do contrário.

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