Em 1999, Titãs e Paralamas juntaram-se – com o patrocínio de uma marca de absorventes – e fizeram shows pelas grandes cidades brasileiras numa turnê que levou o nome das duas bandas, seguido do nome do progesterônico patrocinador – Sempre Livre Mix. Sua namorada menstruava e você juntava as embalagens de absorvente pra ir lá no supermercado comprar o cd com o registro do último show da turnê, no Rio de Janeiro – algo que combinaria mais com um cd do Rogério Skylab, talvez.
Os shows aconteciam assim: primeiro uma banda entrava e tocava sozinha suas próprias músicas; saía uma, entrava a outra e fazia o mesmo; pra só depois, finalmente as duas se juntarem e tocarem um set juntas, alternando-se na autoria das canções. O set era pequeno, coisa de dez músicas (no cd são 10, 8 delas da parte final), mas funcionava muito bem. No final do disquinho ainda tinha uma estrevista legal com vários deles falando sobre a carreira e o Marcelo Fromer soltando a pérola sobre a antiga amizade entre as duas bandas: “Sempre juntos, sempre livre, sempre mix”.
A mistura que se ouvia soava muito homogênea, com arranjos bem acabados, um diálogo muito natural entre os integrantes e muita energia. Comida fechava o show, irresistivelmente dançante, cheia de swing – coisa do ska paralâmico.
Ok, isso foi há quase dez anos atrás e tudo foi lindo.

Titãs e Paralamas - Gravação do cd/dvd na Marina da Glória (RJ)
No segundo semestre do ano passado, os Titãs e os Paralamas reuniram-se novamente para um projeto quase igual, porém mais focado – tocarem pelo Brasil como uma banda só. Claro, nada de composições novas, só sucessos. Desde então eles têm feito shows nas grandes cidades, o que já rendeu um cd/dvd ao vivo.
Cheira a caça-níqueis, não é? Mas, talvez seja mais uma “união do útil ao agradável”.
As bandas têm uma grande amizade, desde há muito tempo (segundo contam, o primeiro porre de Charles Gavin foi responsabilidade de Herbert); são duas das bandas mais bem-sucedidas da primeira geração do rock brasileiro, e foram grandes responsáveis por forjar as bases desse gênero aqui, nos anos 80; produziram várias obras-primas e alcançaram grande sucesso popular.
Mas, há vários poréns nessa história.
Primeiro que os Titãs não são mais os mesmos, indiscutivelmente, – Marcelo Fromer morreu, Nando Reis saiu – e depois de tantas baixas de guerra e uma certa dose da ação implacável do tempo, já não têm mais tanta originalidade e furor musical a oferecer.
Os Paralamas, embora ainda intocados pela morte e unidos, perderam com o acidente de Herbert. Sim, ele ainda é um gênio como sempre foi, tem aquela energia mágica que só se conhece ao vê-lo e ouvi-lo pessoalmente, mas já não tem o mesmo gás de antes, nem a destreza com a guitarra ou aquela voz que só desafinava na hora certa.
Ver as duas bandas tocando juntas no palco ainda deve ser de arrepiar, e inclusive esse show da gravação (no Rio de Janeiro, como sempre) deve ter sido de arrepiar, mas não se pode dizer o mesmo do álbum que registra o encontro.
A impressão que fica é de que tá todo mundo cansado (mesmo que não estejam) depois de fazer tanta história. Sei lá, não ficou harmonioso e contundente dessa vez.
As baterias de Charles e Barone não adicionaram peso extra nenhum ao som, muito pelo contrário – parece que, por conta da mixagem, de duas baterias que estavam no palco, não se escuta nem uma sequer.
O set de músicas é muito lugar-comum. Nem o Caraço da Cabeça, música genial que eles compuseram juntos, tocaram.
As participações também foram dispensáveis – com exceção do grande e genial Arnaldo Antunes, claro. Onde foi parar o peso todo da guitarra de Andreas Kisser? No cd é que não foi. Samuel Rosa como sempre, com aquele vocalzinho que não fede nem cheira, também não fez muita diferença no som.
A turnê sim teve participações mais interessantes, como Marcelo Camelo, por exemplo.
Algo interessante de se notar e que fica muito evidente com a alternância da autoria das músicas é a diferença clara entre as cancões dos dois grupos – algo que se comparado a um desenho seria como uma pintura rupestre obscena em contraste com uma paisagem realista numa tela a óleo: a força e a crueza rústica das canções do Titãs ao lado da poesia inteligente e belamente construída de Herbert – em ambos os casos, música boa.
Mas, de qualquer maneira, eu ainda sou muito mais o álbum duplo dos Paralamas, Uns Dias Ao Vivo e o Ao Vivo MTV dos Titãs – cada um um belo registro de uma grande banda, com um puta som, esses sim dois cds do cacete! – do que o Titãs e Paralamas Juntos e Ao Vivo.

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