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De repente, na mesa do trabalho em frente àquela tela luminescente cheia de letras brancas sobre um fundo preto, ele viu seu reflexo envelhecido e pensou como a chegada dos vinte anos pareciam, naquele momento, tão pouco distante. No momento em que a passagem do tempo foi suspensa por uma mínima fração de infinito, como quando a morte se faz eminente, o homem foi abarcado por um turbilhão de lembranças, que o jogaram de um lado para o outro, fazendo-o chocar-se contra os pedaços de existência que emergiam de sua memória, frenética e psicodelicamente.
Sentiu o gosto que tinha a sopa de fubá da escola, lembrou do cheiro forte do perfume do professor do primário, sentiu o frio das manhãs em que acordava como muita relutância e sofrimento.
Lembrou da guitarra, o sonho de ser músico. Lembrou da bandinha que teve – a primeira, a segunda e todas as seguintes – , os shows para pouca gente, os shows para bastante gente e a vez em que finalmente acreditou que largaria tudo para viver como sempre sonhara. Mas aí vieram os gêmeos: a fragilidade deles, a luta pela guarda, o problema do mais velho com drogas (ora, mesmo quando gêmeos, um nasce primeiro, não é?!!), tantas adversidades e reveses do acaso.
Na época, até que achou bom serem dois. Assim, não correria o risco de ceder à tentação de chamá-los de Neto. Sabe como é, gostava do Filho em seu nome, não custava fazer o mesmo e chamar o filho de Neto. Mas dois com o mesmo nome não dava! Escolher um só, muito menos !
Ah sim, a guitarra. Acabou ficando para o mais novo – esse, músico de verdade. Lembrou de como se sentiu feliz quando ganhou um professor de música dentro de casa.
Todos os blues de sua vida tocaram em sua mente. Mais do que tudo, aquela era a trilha sonora do seu mundo.
Sentiu novamente o medo de quando dirigiu pela primeira vez, a felicidade de quando gozou com uma mulher pela primeira vez e a empolgação juvenil de quando voou pela primeira vez.
Pensou que nunca conheceria o exterior, e conheceu.
Vislumbrou o rosto envelhecido da esposa e pensou que não teria escolhido outro caminho na vida, senão aquela rota tortuosa e errante que o fez reecontrar seu grande amor dos tempos do colégio.

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