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Ah, se o mundo não fosse tão real, tão sóbrio! Talvez nós seríamos felizes, os homens não seriam todos infiéis, nem  as mulheres todas lascivas por natureza.

Se o mundo fosse assim, tal qual imaginamos quando éramos embriões sociais – fetos protegidos no ventre de nossas mães-pureza, alheios à tentação do outro, do reflexo tentador dos semelhantes em nossas retinas – quem sabe a vida fosse justa, o amor sempre verdadeiro e superador de toda as coisas.

Talvez, se não tivéssemos esses mil olhos-de-maldade que nos guiam em completa cegueira, nem o cordão umbilical eterno que liga nosso umbigo à placenta da hipocrisia, o reinício da contagem dos dias no calendário pudesse ser chamado de “ano novo” com algum significado.

Se Deus fosse mesmo pai, realmente olhasse por nós e não nos culpasse por aquilo que somos (mesmo tendo Este nos feito à sua imagem e semelhança); se em nome d’Ele não se fizesse a morte e a destruição, então não seria demais a escola ensinar ou a família educar.

Não fossem almas atormentadas, corações partidos, psiques perdidas fingirem a lucidez por meio de palavras, quem sabe você, leitor, ainda permanecesse delirando/sonhando que pode ser feliz, e de fato assim fosse!