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Talvez a dificuldade em escrever deva-se à ausência de vida, ou ao excesso desta. Quem é que sabe dizer quando acontece um ou outro? Quem aqui seria irresponsável o bastante para dizer que tem o controle da situação? A situação de ser(-)humano; ser que é verbo e substantivo entrelaçados e inseparáveis; ser que é jogado de lá pra cá pela maré de possibilidades e incertezas que é a vida, escravo de si e do que está ao seu redor.

O texto se liquefaz no cérebro daquele que tenta apanhá-lo, intangível, fujão, sempre um passo à frente, como um borrão na penumbra. Quanto tocado se desfaz como bolha de sabão. Fica aquela sensação do choro que não sai, da lágrima aprisionada, o nó na garganta que não vira pranto.

As palavras não vêm, assim como a vida também não vem em doses exatas, regulares e com hora marcada. A vida vem em avalanches e conta-gotas, e não raro as gotas inundam e as avalanches deixam tudo no lugar.

Feliz é aquele que aprendeu a domar seu espírito, adestra sua natureza e arranca o que quer dela, na hora em que quer. A maioria de nós vive refém de si mesmo, não há porque negar – a negação já é em si uma afirmação de muitas outras coisas.

Se nada disso parece fazer sentido é porque o sentido também é moço frágil, que tomba diante de qualquer argumento, qualquer olhar diferente, e não tem morada fora da mente de quem o concebe. As palavras são pilares inabaláveis sobre os quais se constroem universos, mas que nunca permitem vê-los. Para alcançar aquilo que elas sustentam é preciso derrubá-las, e tocar o subjetivo do autor, algo que, de fato, nunca é possível.

Um texto será sempre uma tentativa desesperada de transpor a prisão eterna que é a subjetividade humana, e será sempre em vão. Se não tem sucesso, pelo menos cumpre o objetivo de dar algum breve alento aos que sonham em ver o mundo do lado de fora um dia.

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