Talvez a dificuldade em escrever deva-se à ausência de vida, ou ao excesso desta. Quem é que sabe dizer quando acontece um ou outro? Quem aqui seria irresponsável o bastante para dizer que tem o controle da situação? A situação de ser(-)humano; ser que é verbo e substantivo entrelaçados e inseparáveis; ser que é jogado de lá pra cá pela maré de possibilidades e incertezas que é a vida, escravo de si e do que está ao seu redor.
O texto se liquefaz no cérebro daquele que tenta apanhá-lo, intangível, fujão, sempre um passo à frente, como um borrão na penumbra. Quanto tocado se desfaz como bolha de sabão. Fica aquela sensação do choro que não sai, da lágrima aprisionada, o nó na garganta que não vira pranto.
As palavras não vêm, assim como a vida também não vem em doses exatas, regulares e com hora marcada. A vida vem em avalanches e conta-gotas, e não raro as gotas inundam e as avalanches deixam tudo no lugar.
Feliz é aquele que aprendeu a domar seu espírito, adestra sua natureza e arranca o que quer dela, na hora em que quer. A maioria de nós vive refém de si mesmo, não há porque negar – a negação já é em si uma afirmação de muitas outras coisas.
Se nada disso parece fazer sentido é porque o sentido também é moço frágil, que tomba diante de qualquer argumento, qualquer olhar diferente, e não tem morada fora da mente de quem o concebe. As palavras são pilares inabaláveis sobre os quais se constroem universos, mas que nunca permitem vê-los. Para alcançar aquilo que elas sustentam é preciso derrubá-las, e tocar o subjetivo do autor, algo que, de fato, nunca é possível.
Um texto será sempre uma tentativa desesperada de transpor a prisão eterna que é a subjetividade humana, e será sempre em vão. Se não tem sucesso, pelo menos cumpre o objetivo de dar algum breve alento aos que sonham em ver o mundo do lado de fora um dia.

2 comentários
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15 março 2009 às 8:39 pm
sandrinha
É… às vezes lágrimas refletem palavras que não podem ser ditas. Ou as palavras se traduzem em lágrimas?
Que bom que voltou com seus textos. Cada vez mais maduros, diga-se de passagem.
15 março 2009 às 8:39 pm
sandrinha
É… às vezes lágrimas refletem palavras que não podem ser ditas. Ou as palavras não ditas se traduzem em lágrimas?
Que bom que voltou com seus textos. Cada vez mais maduros, diga-se de passagem.