Como criança que era, tudo que eu queria naquele dia era ganhar um brinquedo. Esperei o dia todo, ansiando a chegada deles, não pensando em outra coisa, sonhando com aquele momento. Coisa de criança inocente, sonhadora, de poucas companhias, enfiada em seu mundinho próprio tentando torná-lo grande o bastante para lhe acolher confortavelmente. Ao final do dia, voltaram trazendo o objeto que outrora, por desconhecido e representante que era de toda uma imaginação movida a puro desejo e sonho, causara tanta inquietude: um disco de vinil.
Meu Deus, que decepção! Lembro-me como se fosse hoje. Continua gravado aqui nesse consciente, tão tangente a ponto de quase me causar lágrimas ainda agora.
Um LP de capa azul – em primeiro plano um robozinho de mão de pinça, luzes grandes coloridas resplandecentes, cabeça de lata abobadada, braços de mangueira de aspirador de pó, lembrava àquele do Perdidos no Espaço. (Vim a conhecer o seriado somente anos depois, mas me vem essa comparação à cabeça hoje.) Era um daqueles discos da Som Livre, comuns na época, com temática infantil: musiquinhas dançantes, cantantes e divertidas para crianças.
Não pra mim. Eu queria um brinquedo, droga! Uma jogo novo de massinhas de modelar da Estrela, um Comandos em Ação, um Lego, um Batman de brinquedo, um Superman, Aquaman, Homem-Aranha, qualquer um!
Chorei feito criança, tal que eu realmente era. Olhava aquele quadrado azul-colorido e tinha vontade de sumir. Temia ter que ouvi-lo por obrigação, para não mostrar a rejeição ao agrado dos pais. Pensava em tudo que aquele objeto devia ser e não era, e chorava novamente – se é que já havia parado.
Um tempo depois eu pedi de presente aos mesmos que me deram o disco azul maldito, vejam só, um disco! Que dessa vez fora escolhido e adquirido pelas minhas próprias mãos, embora não com meu dinheiro. Entrei na loja já sabendo o que queria e disse: “Quero aquele pendurado ali em cima”. Nem precisei procurar muito, escolher; era produto do momento. (Hoje não entendo muito bem o porquê, mas naquela época os discos ficavam às vezes pendurados nas lojas, como roupas no varal.)
A capa mostrava uma mulher em pose de dança, meio retorcida, atrás um fundo amarelado e tiras de todas as cores circundando-a, com os nomes das músicas seguindo esse mesmo sentido das faixas. Era o Disco 95, uma coletânea das músicas dance/disco que mais fizeram ou faziam sucesso no ano – uma espécie de Top Hits. Mais um da Som Livre, que naquela época ainda tinha vários lançamentos nesses moldes, mas dessa vez nada de música pra criança. Era música para jovem – para mim, menino petulante, presunçoso, que queria ouvir música de gente grande.
Escutei aquele disco por bastante tempo. Foi, das poucas experiências que tive com o vinil, a mais duradoura.
Logo veio o CD, e aqueles discos grandes e pretos se foram. Mal sabia eu o que estava por vir - tanto em minha vida, quanto no mundo.
Descobri o mundo mágico dos discos, que então já eram menores, compactos, compact discs, e estes viraram meus objetos de desejo. Continuei ainda parcialmente decepcionado por não poder tê-los como queria. E não podendo comprar um CD, naquela época, você ficava sem música – não havia MP3 e internet para tornar tudo mais fácil.
Mesmo assim, os seis meses de espera entre um disquinho novo e outro eram recompensados por horas e horas de audição interminável, e devoração dos encartes.
Por vários anos em que esses eram meus objetos de desejo maior, tive poucos, mas que foram saboreados prolongadamente e em sua completude, cada um.
O tempo passou mais ainda, nem tanto assim, mas o suficiente para acabar também com esses disquinhos menores, e hoje eu sinto falta deles. Falta de desejá-los, de esperá-los, de não tê-los, e de quando tê-los, colocar neles toda a felicidade que um instante de vida pode proporcionar. Falta de não ter outra forma de saciar minha sede de música senão com eles.
Eu ainda, caso pudesse mudar os eventos do início de meus dias, escolheria ter ganhado um brinquedo, ao invés de um disco, naquele dia triste que não se apaga de minha memória. Mas ainda assim, gostaria de ter ganhado muitos mais discos como aqueles, em dias mais felizes do que aquele e do que estes de agora.

3 comentários
Feed de comentários deste artigo
14 abril 2009 às 11:20 pm
sandrinha
Pois é… existem marcas que se fazem tão profundas que nunca serão apagadas das nossas vidas… Mas depende de cada um de nós como as guardaremos em nosso íntimo.
03 junho 2009 às 8:57 am
Nelma
Nossa Edinho!!!
Que drama! Aquele disco era muito legal.Como é que eu poderia saber que vc queria um briquedo?
Presente é assim mesmo…nem sempre agrada.
07 junho 2009 às 2:29 pm
Ana Paula
Edinho a tia nunca que imaginava a tristeza que aquele presente te causou se eu soubesse tinha te dado um brinquedo afinal vc era meu único sobrinho. Aliás eu me diverti muito com vc, se lembra da gente dançando juntos? Beijos Paula.