De repente, na mesa do trabalho em frente àquela tela luminescente cheia de letras brancas sobre um fundo preto, ele viu seu reflexo envelhecido e pensou como a chegada dos vinte anos pareciam, naquele momento, tão pouco distante. No momento em que a passagem do tempo foi suspensa por uma mínima fração de infinito, como quando a morte se faz eminente, o homem foi abarcado por um turbilhão de lembranças, que o jogaram de um lado para o outro, fazendo-o chocar-se contra os pedaços de existência que emergiam de sua memória, frenética e psicodelicamente.

Sentiu o gosto que tinha a sopa de fubá da escola, lembrou do cheiro forte do perfume do professor do primário, sentiu o frio das manhãs em que acordava como muita relutância e sofrimento.

Lembrou da guitarra, o sonho de ser músico. Lembrou da bandinha que teve – a primeira, a segunda e todas as seguintes – , os shows para pouca gente, os shows para bastante gente e a vez em que finalmente acreditou que largaria tudo para viver como sempre sonhara. Mas aí vieram os gêmeos: a fragilidade deles, a luta pela guarda, o problema do mais velho com drogas (ora, mesmo quando gêmeos, um nasce primeiro, não é?!!), tantas adversidades e reveses do acaso.
Na época, até que achou bom serem dois. Assim, não correria o risco de ceder à tentação de chamá-los de Neto. Sabe como é, gostava do Filho em seu nome, não custava fazer o mesmo e chamar o filho de Neto. Mas dois com o mesmo nome não dava! Escolher um só, muito menos !

Ah sim, a guitarra. Acabou ficando para o mais novo – esse, músico de verdade. Lembrou de como se sentiu feliz quando ganhou um professor de música dentro de casa.

Todos os blues de sua vida tocaram em sua mente. Mais do que tudo, aquela era a trilha sonora do seu mundo.

Sentiu novamente o medo de quando dirigiu pela primeira vez, a felicidade de quando gozou com uma mulher pela primeira vez e a empolgação juvenil de quando voou pela primeira vez.

Pensou que nunca conheceria o exterior, e conheceu.

Vislumbrou o rosto envelhecido da esposa e pensou que não teria escolhido outro caminho na vida, senão aquela rota tortuosa e errante que o fez reecontrar seu grande amor dos tempos do colégio.

Em 1999, Titãs e Paralamas juntaram-se – com o patrocínio de uma marca de absorventes – e fizeram shows pelas grandes cidades brasileiras numa turnê que levou o nome das duas bandas, seguido do nome do progesterônico patrocinador – Sempre Livre Mix. Sua namorada menstruava e você juntava as embalagens de absorvente pra ir lá no supermercado comprar o cd com o registro do último show da turnê, no Rio de Janeiro – algo que combinaria mais com um cd do Rogério Skylab, talvez.

Os shows aconteciam assim: primeiro uma banda entrava e tocava sozinha suas próprias músicas; saía uma, entrava a outra e fazia o mesmo; pra só depois, finalmente as duas se juntarem e tocarem um set juntas, alternando-se na autoria das canções. O set era pequeno, coisa de dez músicas (no cd são 10, 8 delas da parte final), mas funcionava muito bem. No final do disquinho ainda tinha uma estrevista legal com vários deles falando sobre a carreira e o Marcelo Fromer soltando a pérola sobre a antiga amizade entre as duas bandas: “Sempre juntos, sempre livre, sempre mix”.
A mistura que se ouvia soava muito homogênea, com arranjos bem acabados, um diálogo muito natural entre os integrantes e muita energia. Comida fechava o show, irresistivelmente dançante, cheia de swing – coisa do ska paralâmico.

Ok, isso foi há quase dez anos atrás e tudo foi lindo.

Titãs e Paralamas

Titãs e Paralamas - Gravação do cd/dvd na Marina da Glória (RJ)

No segundo semestre do ano passado, os Titãs e os Paralamas reuniram-se novamente para um projeto quase igual, porém mais focado – tocarem pelo Brasil como uma banda só. Claro, nada de composições novas, só sucessos. Desde então eles têm feito shows nas grandes cidades, o que já rendeu um cd/dvd ao vivo.

Cheira a caça-níqueis, não é? Mas, talvez seja mais uma “união do útil ao agradável”.

As bandas têm uma grande amizade, desde há muito tempo (segundo contam, o primeiro porre de Charles Gavin foi responsabilidade de Herbert); são duas das bandas mais bem-sucedidas da primeira geração do rock brasileiro, e foram grandes responsáveis por forjar as bases desse gênero aqui, nos anos 80; produziram várias obras-primas e alcançaram grande sucesso popular.

Mas, há vários poréns nessa história.

Primeiro que os Titãs não são mais os mesmos, indiscutivelmente, – Marcelo Fromer morreu, Nando Reis saiu – e depois de tantas baixas de guerra e uma certa dose da ação implacável do tempo, já não têm mais tanta originalidade e furor musical a oferecer.
Os Paralamas, embora ainda intocados pela morte e unidos, perderam com o acidente de Herbert. Sim, ele ainda é um gênio como sempre foi, tem aquela energia mágica que só se conhece ao vê-lo e ouvi-lo pessoalmente, mas já não tem o mesmo gás de antes, nem a destreza com a guitarra ou aquela voz que só desafinava na hora certa.

Ver as duas bandas tocando juntas no palco ainda deve ser de arrepiar, e inclusive esse show da gravação (no Rio de Janeiro, como sempre) deve ter sido de arrepiar, mas não se pode dizer o mesmo do álbum que registra o encontro.

A impressão que fica é de que tá todo mundo cansado (mesmo que não estejam) depois de fazer tanta história. Sei lá, não ficou harmonioso e contundente dessa vez.

As baterias de Charles e Barone não adicionaram peso extra nenhum ao som, muito pelo contrário – parece que, por conta da mixagem, de duas baterias que estavam no palco, não se escuta nem uma sequer.
O set de músicas é muito lugar-comum. Nem o Caraço da Cabeça, música genial que eles compuseram juntos, tocaram.

As participações também foram dispensáveis – com exceção do grande e genial Arnaldo Antunes, claro. Onde foi parar o peso todo da guitarra de Andreas Kisser? No cd é que não foi. Samuel Rosa como sempre, com aquele vocalzinho que não fede nem cheira, também não fez muita diferença no som.
A turnê sim teve participações mais interessantes, como Marcelo Camelo, por exemplo.

Algo interessante de se notar e que fica muito evidente com a alternância da autoria das músicas é a diferença clara entre as cancões dos dois grupos – algo que se comparado a um desenho seria como uma pintura rupestre obscena em contraste com uma paisagem realista numa tela a óleo: a força e a crueza rústica das canções do Titãs ao lado da poesia inteligente e belamente construída de Herbert – em ambos os casos, música boa.

Mas, de qualquer maneira, eu ainda sou muito mais o álbum duplo dos Paralamas, Uns Dias Ao Vivo e o Ao Vivo MTV dos Titãs – cada um um belo registro de uma grande banda, com um puta som, esses sim dois cds do cacete!  – do que o Titãs e Paralamas Juntos e Ao Vivo.

Freqüenta restaurantes com os amigos; vai a barzinho todo final de semana. Bebe cerveja, mas não porque gosta. Na verdade, odeia, mas é que todo mundo bebe e não vai ser ele o careta da turma.

Veste roupa de marca – quando vai ao shopping sempre volta com alguma sacola de grife na mão. Tem comprado número 44 ao invés dos 40,42 de antes; G, e não mais M – comer fora tem lá suas desvantagens também. Mas agora faz academia no final das tardes, tem certeza de que vai ficar em forma de novo.

Mora em apartamento no centro da cidade: sofá bonito, tapete novo, cortina na  janela. Não cozinha, não lava, não limpa chão.

Fez cursinho, tentou entrar num curso de trinta por vaga, e entrou. Vai ser juiz, médico, empresário, executivo; vai ser cidadão, participar da nossa “democracia”. Vai determinar o destino de muitos outros – pobres, ignorantes que ele nunca viu na vida.

Fica horas no telefone, falando com as meninas. Vai pra balada, pega um monte; contabiliza tudo. Vai pra praia, pega mais ainda.
Desfila de carro com namoradas gostosíssimas – peitos grandes, coxas saradas, salto agulha, luzes no cabelo, olhos pintados. Vai ao motel pra transar. Nunca dormiu e acordou com a mesma mulher por alguns dias, debaixo do mesmo teto.

Não trabalha, não tem renda, mas sabe muito bem como funcionam os negócios, como se ganha dinheiro.
Pega o carro do pai nos finais de semana, só enquanto não ganha o seu. Vai fazer intercâmbio nas férias.

Nunca teve coragem de usar drogas ilícitas. Acha que maconha é coisa de vagabundo.

Assina Veja, mas só folheia. (Ufa… menos mal.) Assiste a futebol pela tevê a cabo. Escuta poperô no emepê-quatro.

Entra no Orkut de vez em quando, pra mandar um scraps. Nunca escreveu uma carta pra alguém.

Ainda não sentiu o peso da vida, e nem vai sentir. Sempre teve tudo de sobra.
Vai ter um filho, e vai dar a ele a mesma vida que teve.

Apenas mais um burguês, como tantos outros.

E você - pobre, de família pobre, proletário que pega coletivo pra trabalhar, que cozinha o arroz e feijão que come, que parcela em três vezes o all-star que calça; que é apaixonado pela arte, quer ser erudito; que escreve o que ninguém lê; que não pega ninguém, não é bonito; que anda a pé - (mesmo assim) é convicto de que tem muito mais do que qualquer burguês que anda por aí, e ninguém te convence do contrário.

E o amor, hein? Alguém sabe por onde é que ele tem andado? Acho que a última vez em que o vi, estava na novela. E mesmo assim, a gente descobria no final que era de mentira.

Tá, quer mesmo saber? A verdade é que o amor tornou-se demodê. Foi pro brechó, juntar-se a tantas outras humanidades já descartadas por falta de uso: família, casamento, religião, bom-gosto – essas coisas cafonas do tempo de nossos antepassados. Sério. Está tão ao relento quanto toca-disco, fita-cassete, peão.

Só resta ao desprezado amor, habitar a poesia, as histórias fictícias do cinema, da literatura e as alegorias do marketing. Em nossas vidas, virou frase feita, disparada por reflexo em situações onde não há para onde correr. Deixou de ser um baluarte da experiência subjetiva do homem, e adquiriu uma natureza meramente verbal.

“Mas ele diz que me ama.” Jura que isso é o melhor que ele sabe fazer? Peça para que ele se lembre disso todas as vezes em que te fizer sentir preterida e em segundo plano, todas as vezes em que te fizer chorar. Que cabimento há em provar o amor por meio de sucessivas e intermináveis declarações, até que a dúvida do outro seja vencida pelo cansaço?

Euteamos não amam a ninguém.

O amor não precisa ser declarado verbalmente, assim como não é preciso anunciar o nascer do sol ou o ondular do mar. O amor simplesmente toma conta de quem ama ou é amado.

Aliás, os homens das gerações mais recentes morrem de vergonha de admitir que amam. Disfarçam, desconversam, abusam de eufemismos, e quando declaram é com grande constrangimento, principalmente perante outros do gênero. Ninguém quer assumir uma caretice dessas.

Disseram-me: “Você está muito social, político. Fale sobre você, sobre a vida.” Pensei: “Perfeito, vou falar sobre o amor!”

Eu não acredito nesse amor que se vê por aí hoje em dia na ponta da língua de todo mundo. Não acredito no amor do seu amado(a) por você. Nem nesse seu amor por ele ou ela, por mim, ou por qualquer um de nós.

Acredito mesmo é que, atualmente, as pessoas dividem-se apenas em dois grupos: os mal-amados, e os que acreditam em Papai Noel.